A Beleza das Marcas do Tempo: Aceitando as Rugas como Medalhas de Vida
Vivi a maior parte da minha vida tentando parecer mais jovem do que era. Cremes milagrosos, promessas de "apagar 10 anos", tratamentos estéticos, tinturas para esconder os fios brancos.

Outro dia, estava me olhando no espelho enquanto passava o creme no rosto. Aquele ritual matinal que faço há décadas. E de repente, parei. Realmente parei e olhei.

As rugas ao redor dos olhos. As linhas na testa. Os sulcos que descem dos lados do nariz até o canto da boca. O pescoço que já não tem a firmeza de antes. As manchas nas mãos que seguram o frasco de creme.

E sabe qual foi meu primeiro pensamento? “Quando foi que isso aconteceu?”

É engraçado, não é? A gente envelhece todos os dias, mas só percebe de vez em quando. Como se o tempo fosse se acumulando em silêncio e, de repente, ele se revelasse todo de uma vez.

Naquele momento, no espelho, tive uma escolha: me lamentar ou me aceitar. E escolhi a segunda opção. Mas não foi fácil chegar até aqui.

A Guerra Contra o Tempo (Que Nunca Venceremos)

Vivi a maior parte da minha vida tentando parecer mais jovem do que era. Cremes milagrosos, promessas de “apagar 10 anos”, tratamentos estéticos, tinturas para esconder os fios brancos.

A mensagem que eu recebia de todos os lados era clara: envelhecer é ruim. Rugas são problema. Cabelos brancos são desleixo. Você precisa lutar contra a idade.

E eu lutava. Comprava os produtos. Seguia as dicas. Escondia os sinais. Porque tinha medo. Medo de ficar velha. Medo de ficar “feia”. Medo de ser invisível.

Mas sabe o que ninguém te conta? Essa é uma guerra que ninguém vence. O tempo passa para todo mundo. E por mais que você tente segurá-lo, disfarçá-lo ou negá-lo, ele continua seu curso.

A questão não é se vamos envelhecer. A questão é como vamos envelhecer.

O Dia em que Fiz as Pazes com o Espelho

A virada aconteceu numa conversa com a Anelíse, minha filha mais nova. Eu estava reclamando das rugas (de novo), pensando em fazer algum procedimento estético.

“Mãe”, ela disse, me olhando com carinho. “Cada uma dessas rugas tem uma história. Aqui, do lado dos seus olhos? São de tanto rir. Essas na testa? De todas as vezes que você se preocupou comigo, com o Sebastian, com a Milene. Essas marcas… são você. São sua vida.”

Aquilo me pegou de surpresa. Eu nunca tinha pensado assim.

Sempre vi as rugas como falhas. Como sinais de derrota. Como provas de que eu estava “perdendo” para o tempo.

Mas e se não fossem? E se cada linha no meu rosto fosse, na verdade, um mapa da minha jornada?

Reescrevendo a História das Minhas Rugas

Comecei a fazer um exercício diferente. Em vez de olhar no espelho com julgamento, comecei a olhar com curiosidade. Com gratidão, até.

As rugas ao redor dos olhos: São dos sorrisos. De todas as vezes que ri até doer a barriga. Das gargalhadas com as amigas. Dos momentos de alegria pura com os filhos. São os “pés de galinha” que eu ganhei de tanto viver momentos felizes.

As linhas na testa: São da preocupação, sim. Mas da preocupação de quem ama. De quem se importa. De quem carregou o peso das responsabilidades com seriedade. São marcas de mãe, de esposa, de profissional dedicada.

O sulco entre as sobrancelhas: Esse é dos momentos difíceis. Das decisões complicadas. Das noites mal dormidas. Das vezes em que precisei ser forte mesmo quando queria desmoronar. É a marca da resiliência.

As marcas no pescoço e no colo: São do tempo que passei ao sol. Das viagens. Das caminhadas. Da vida vivida ao ar livre, aproveitando o calor, sentindo a brisa. São lembranças tatuadas na pele.

As mãos com manchas e veias aparentes: São as mãos que trabalharam. Que digitaram milhares de reportagens. Que cozinharam centenas de refeições. Que embalaram filhos. Que acariciaram o Rúben. São mãos que viveram.

Quando comecei a ver assim, tudo mudou.


A Beleza que a Sociedade Não Quer que Você Veja

Vivemos numa sociedade obcecada pela juventude. As capas de revista mostram peles perfeitas (quase sempre editadas). As propagandas vendem a ilusão de que você pode “parar o tempo”. As celebridades fazem procedimentos atrás de procedimentos.

E nós, mulheres reais, ficamos olhando para essas imagens e nos sentindo inadequadas. Velhas. Feias.

Mas deixa eu te contar um segredo: a beleza não tem prazo de validade.

A beleza de uma mulher de 60 anos não é menor do que a de uma de 20. É diferente. E essa diferença é linda.

Uma mulher de 60 anos tem:

  • Olhos que já viram muito e por isso olham com profundidade
  • Um sorriso que carrega histórias
  • Uma postura que vem da confiança conquistada com o tempo
  • Uma presença que só a experiência traz
  • Uma leveza que vem de já ter provado tantas coisas

Isso não é beleza? Para mim, é a beleza mais real que existe.


Meu Pacto de Paz com a Idade

Decidi fazer um pacto comigo mesma. Não vou mentir: ainda uso meu creme hidratante. Ainda cuido da pele. Ainda me arrumo e gosto de estar apresentável.

Mas mudei a intenção.

Antes: Eu me cuidava para esconder a idade, para “disfarçar”, para parecer mais jovem.

Agora: Eu me cuido para estar bem, saudável, confortável na minha própria pele. Não para negar quem sou, mas para celebrar.


Minhas Novas Regras de Beleza:

1. Parei de me desculpar pela idade

Quando alguém comenta algo sobre minha aparência, não respondo mais com “é, estou ficando velha” como se fosse um pedido de desculpas. Respondo com “tenho 60 anos e estou vivendo bem”.

2. Deixei o cabelo mostrar os fios brancos

Passei décadas tingindo religiosamente. Até que um dia pensei: por quê? Quem disse que cabelo branco é feio? É só diferente. E decidi assumir. Foi libertador! Hoje tenho mechas brancas misturadas com os fios castanhos. É meu cabelo. É bonito do jeito que é.

3. Escolho roupas pelo conforto e pelo que me faz sentir bem

Não sigo mais aquelas “regras” bobas de “mulher de certa idade não deve usar isso ou aquilo”. Se me sinto bem, uso. Ponto final.

4. Sorrio mais (e aceito que isso cria mais rugas!)

Prefiro ter um rosto cheio de marcas de alegria do que uma cara lisa e infeliz. Cada ruga que o sorriso cria vale a pena.

5. Cuido da saúde, não da aparência perfeita

Meu foco agora é estar saudável. Comer bem. Caminhar. Dormir direito. Me hidratar. Se isso resultar em “parecer mais jovem”, ótimo. Se não, também está ótimo. O importante é me sentir bem.


E os Cabelos Brancos do Rúben

Sabe o que me fez perceber como somos injustos com as mulheres? O Rúben.

Ele tem 65 anos. O cabelo dele está completamente grisalho. E sabe como as pessoas reagem? “Que elegante!” “Que charmoso!” “Que ar de distinção!”

Já eu, quando deixei os primeiros fios brancos aparecerem, ouvi: “Você não vai pintar?” “Está se deixando?” “Parece cansada”.

Por que um homem grisalho é charmoso e uma mulher grisalha é “desleixada”? Por que as marcas do tempo são “distinção” neles e “decadência” em nós?

Essa injustiça me irritou. E me fez decidir: não vou mais participar desse jogo.


A Liberdade de Envelhecer em Paz

Tem uma liberdade imensa em aceitar a idade. Uma leveza. Um alívio.

Não preciso mais competir. Não preciso mais fingir. Não preciso mais gastar energia (e dinheiro!) tentando esconder quem eu sou.

Posso simplesmente… ser.

Ser a Berta de 60 anos, com suas rugas, seus cabelos brancos, suas manchinhas, suas marcas. A Berta que viveu, amou, chorou, riu, trabalhou, criou filhos, construiu uma vida.

E essa Berta é bonita. Do jeito que é.


Um Convite para Você

Se você também está nessa luta contra o espelho, contra o tempo, contra as marcas da vida, deixa eu te fazer um convite:

Olhe no espelho hoje. De verdade. E em vez de procurar defeitos, procure histórias.

Cada ruga: que história ela conta?
Cada marca: o que ela representa?
Cada fio branco: quantos momentos ele presenciou?

Seu rosto não é um problema a ser resolvido. É um livro a ser lido. Um mapa da sua jornada. Uma prova de que você viveu.

E isso, minha querida, é bonito demais.

E você? Como é sua relação com as marcas do tempo? Já fez as pazes com o espelho? Me conta aqui! 💛

Berta Cortéz

Jornalista, escritora, mãe, avó, esposa e eterna aprendiz da vida.

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