Gentilezas Diárias: Como Transformar Sua Vida
Durante a maior parte da minha vida, fui especialista em cuidar dos outros. Cuidei dos meus pais na velhice, criei três filhos, apoiei o Rúben na carreira, fui a

Durante a maior parte da minha vida, fui especialista em cuidar dos outros. Cuidei dos meus pais na velhice, criei três filhos, apoiei o Rúben na carreira, fui a amiga que sempre estava disponível para ouvir. Na redação, era a colega que ficava até mais tarde para ajudar quem precisava.

Mas cuidar de mim? Isso sempre ficava para depois. Para quando sobrasse tempo. Para quando todos estivessem bem. Para quando eu “merecesse”.

Spoiler: esse momento nunca chegava.

Foi preciso um esgotamento silencioso, daqueles que vão minando a gente aos poucos, para eu entender uma verdade que deveria ser óbvia: não é egoísmo cuidar de si mesma. É necessidade. É sobrevivência.


A Culpa de Pensar em Mim

Lembro de um dia específico, uns cinco anos atrás. Eu tinha marcado uma massagem (coisa rara!) e, na última hora, a Milene me ligou pedindo ajuda com os meninos. Cancelei a massagem sem pensar duas vezes.

O Rúben, quando soube, me olhou com aquela expressão dele: “Berta, por que você sempre faz isso?”

“Fazer o quê?”, perguntei, genuinamente sem entender.

“Colocar todo mundo na frente de você. Como se suas necessidades não importassem.”

Aquilo me pegou de surpresa. Fiquei na defensiva. “Ora, Rúben, ela precisava de ajuda! Sou mãe, é minha obrigação!”

Mas a frase dele ficou ecoando na minha cabeça por dias. Como se suas necessidades não importassem.

Será que era isso mesmo que eu fazia? Será que eu tinha construído minha vida inteira em torno de ser útil para os outros, e esquecido que eu também precisava de cuidado?


A Geração que Não Aprendeu a Parar

Nós, mulheres da minha geração, fomos criadas assim. Para servir, cuidar, estar disponível. Nossa mãe fazia isso, nossa avó fazia isso. Era o que se esperava de uma “boa mulher”.

Trabalhar fora, cuidar da casa, criar os filhos, apoiar o marido, estar bonita, ser forte. Tudo ao mesmo tempo. E sem reclamar, porque reclamar era frescura.

A autocompaixão? Isso nem tinha nome na época. Era visto como fraqueza, como egoísmo. “Fulana só pensa nela” era um dos piores insultos que alguém poderia receber.

Então a gente ia levando. Empurrando o cansaço para debaixo do tapete, ignorando os sinais do corpo, acumulando frustrações em silêncio.

Até que o corpo (ou a alma) grita.


Meu Despertar Doloroso

O meu grito veio na forma de uma exaustão profunda. Não era só cansaço físico. Era uma exaustão da alma. Acordar sem vontade, arrastar o dia, sentir um vazio que não conseguia explicar.

O médico chamou de “esgotamento emocional”. Eu chamei de “pagar a conta de décadas esquecendo de mim mesma”.

Foi ali, naquele consultório, ouvindo aquele diagnóstico, que percebi: eu tinha passado 55 anos cuidando de todo mundo, menos de mim. E agora, meu corpo estava cobrando a fatura.

O tratamento não foi só remédio. Foi reaprender a viver. E a primeira lição foi: gentileza consigo mesma não é luxo, é necessidade básica.


O Que Significa Cuidar da Própria Alma

Cuidar de si não é passar o dia no spa (embora, se puder, faça isso também!). Não é ser egoísta ou abandonar quem amamos. É algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, revolucionário.

É dizer “não” quando seu corpo pede descanso.
É não se sentir culpada por tirar uma hora para ler um livro.
É permitir-se chorar quando precisa chorar.
É reconhecer seus limites sem vergonha.


As Pequenas Gentilezas que Mudaram Minha Vida:

1. Aprender a dizer “não” sem justificar

Essa foi a mais difícil. Durante toda a vida, eu dizia “sim” para tudo. E quando dizia “não”, vinha acompanhado de mil desculpas, como se eu precisasse me justificar por existir.

Hoje, aprendi que “não posso desta vez” é uma frase completa. Não preciso explicar, inventar desculpa, me desdobrar. Meu tempo e minha energia são valiosos. E tudo bem protegê-los.


2. Criar um ritual matinal só meu

Toda manhã, acordo 30 minutos antes do Rúben. Faço um chá, sento na poltrona da sala com um cobertor macio, e fico ali. Às vezes leio, às vezes só olho pela janela, às vezes escrevo no meu diário.

São 30 minutos sagrados. O mundo pode esperar. As tarefas podem esperar. Aquele momento é meu, e não negoceio.


3. Respeitar os sinais do meu corpo

Antes, eu ignorava quando estava cansada. “Ah, depois eu descanso”. Empurrava, empurrava, empurrava. Hoje, quando o corpo pede pausa, eu paro.

Cancelo compromissos se não estou bem. Tiro uma soneca à tarde sem culpa. Deixo a louça na pia se estou exausta. A louça vai continuar lá. Eu, se não me cuidar, posso não continuar bem.


4. Permitir-me ser imperfeita

Esse é um aprendizado diário. Deixar a casa meio bagunçada. Queimar o bolo de vez em quando. Escrever um artigo que não ficou perfeito. Errar, falhar, ser humana.

A perfeição é uma prisão. E eu decidi me libertar dela.


5. Fazer coisas só porque me dão prazer

Comecei a fazer crochê. Sou péssima, faço uns trabalhos tortos, mas adoro! É relaxante, ocupa as mãos, acalma a mente. E não precisa servir para nada além de me dar alegria.

Essa foi uma revelação: eu posso fazer algo só porque eu gosto. Não precisa ter utilidade, não precisa impressionar ninguém, não precisa ter resultado. Pode ser só por prazer mesmo.


Quando Cuidar de Si Vira Combustível para Cuidar dos Outros

Aqui está o paradoxo bonito: quando comecei a cuidar melhor de mim, melhorei também nos meus relacionamentos.

Fiquei mais paciente com o Rúben. Mais presente com os filhos (mesmo à distância). Mais disponível emocionalmente para as amigas. Não porque eu tinha mais tempo, mas porque eu tinha mais energia interior.

É como aquela instrução do avião: coloque a máscara em você primeiro, depois ajude os outros. Não é egoísmo, é bom senso. Se você desmaiar, não vai poder ajudar ninguém.

Cuidar de si é se abastecer para poder abastecer os outros. É encher o próprio copo para poder transbordar.


Desaprendendo a Culpa

A culpa, ah, a culpa. Essa velha companheira das mulheres da minha geração. Culpa por descansar. Culpa por se divertir. Culpa por pensar em si.

Desaprender a culpa tem sido um dos processos mais libertadores da minha vida. E olha, não é fácil. Tem dias que ela volta, sorrateira, sussurrando que eu deveria estar fazendo mais, sendo mais, dando mais.

Mas agora eu reconheço a voz dela. E respondo: “Obrigada pela opinião, mas não hoje. Hoje eu escolho me cuidar.”

Frases que Repito Quando a Culpa Bate:

  • “Eu mereço descanso, não preciso conquistar esse direito.”
  • “Cuidar de mim me torna mais capaz de cuidar de quem amo.”
  • “Minha paz interior beneficia todos ao meu redor.”
  • “Eu posso ser gentil comigo mesma e ainda assim ser uma boa pessoa.”


Um Convite para Você

Se você se identificou com esta história, deixa eu te fazer algumas perguntas:

Quando foi a última vez que você fez algo só por você, sem culpa?
Quando foi a última vez que disse “não” sem se justificar?
Quando foi a última vez que respeitou seu cansaço?

Se você está lutando para lembrar, talvez seja hora de mudar isso.

Comece pequeno. Não precisa ser uma revolução. Pode ser:

  • 10 minutos de silêncio pela manhã
  • Um banho mais demorado com aquele sabonete gostoso
  • Ler um capítulo do livro antes de dormir
  • Dizer “hoje não posso” quando realmente não pode
  • Pedir ajuda em vez de fazer tudo sozinha

São pequenas gentilezas. Mas acredite: elas se acumulam. E com o tempo, transformam tudo.


Cuidar de Si é Ato de Amor

Demorei 60 anos para aprender, mas finalmente entendi: cuidar de mim não me torna egoísta. Me torna inteira. Me torna presente. Me torna viva.

E uma mulher que cuida da própria alma é uma mulher que tem muito mais a oferecer ao mundo. Não por obrigação, mas por transbordamento.

Você merece essa gentileza. Você merece esse cuidado. Você merece se colocar na lista de prioridades.

Não no fim da lista. No topo dela.

E você? Como anda sua relação com o autocuidado? Consegue ser gentil consigo mesmo ou a culpa ainda aparece? Me conta aqui, vamos conversar! 💛

Berta Cortéz

Jornalista, escritora, mãe, avó, esposa e eterna aprendiz da vida.

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